quarta-feira, 1 de outubro de 2008

28 Setembro 2008

Nas nossas vida há sempre figuras que nos marcam. Pessoas que por um ou outro motivo, ficam para sempre como sendo nossas. Na minha vida tive várias figuras maternais. A minha avó. A minha mãe. As minhas tias. Duas delas. Uma do Alentejo, outra daqui. Ora a minha tia daqui, foi sem dúvida um elo importante, no meu nucleo familiar. Sem dúvida uma outra mãe. A mãe onde passava tardes inteiras na minha infância. Onde aprendi a gostar de tanta coisa. Onde sentia paz e sossego. Onde brincava com as suas filhas, as minhas primas. Enfim... com o tempo afastámo-nos. Eu afastei-me. Dizia eu que não tinha tempo. E na verdade não tinha. E é com isso na consciência que hei-de viver. Ela teve tempo para mim, mas eu não tive tempo para ela. E ela disse-me. Um dia. Um dia que já lá vai e que não voltará. - Hoje não tens tempo, mas quando eu ou o teu tio fechar os olhos, terás. Mas ai já não te veremos.
E esse dia chegou. E estas palavras veem vezes e vezes sem conta à minha memória. Hoje ela não me Vê. Hoje eu choro a sua ausência, lembrando a mim própria que tinha outras prioridades, coisas que pareciam tão coerentes e que agora já não me parecem assim tão importantes. Não importa o quê, importa é que eu não estive lá. Hoje o meu tio sofre. Claro que sim. Aquela tia era um rochedo. Tanto era que tudo dependia dela. Ela ajudava-os a todos.
E morre-se assim...
Num dia andamos a passear felizes a fazer planos, a tomar decisões...
No outro... bem no outro. No outro vem um ataque de tosse fortissimo e máta-nos sem dó nem piedade.

A tia A.M. morreu. Dizemos ao telefone. Como? Não pode ser...
E chegamos a receber telefonemas, para confirmar se realmente era verdade. Isto mostra-nos o quão forte e firme era ela. Assim. Tia... se eu pudesse. Sei que de nada agora vale. Mas com as minha atitudes vivo eu. E sou eu que viverei a pensar no tempo que não tive ou não quis ter. Sim porque quando se quer, esse tempo chega para tudo.
Lembro-me de tanta coisa, mas o que mais ficou, foi o seu chocolatinho quentinho. A sua enorme paciência e dedicação. O seu amor, por mim, quando eu parecia nunca ir tê-lo. Mas infelizmente a vida também me transformou assim. Despegada de tudo. A acreditar que para tudo iremos ter tempo. Quando na verdade não somos nada. Somos apenas aquilo que vivemos no dia a dia.
Teve uma morte sem muita dor. Um ataque de tosse. Um desmaio. A mão do tio e da prima por perto. E deixou-nos assim. Como pode a vida, atraiçoar-nos com uma coisa tão banal?
Então tossimos e morremos?
Só isso?
Não somos nada.
A si, que não ouvirá, mas que sempre soube, que foi uma das figuras mais centrais na minha vida. A si... prometo que irei ter tempo para o tio, porque infelizmente, para si já precisarei de ter.
Fátima.