quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Olecas... que se passa?

O meu percurso escolar foi complicado.
Aos 4 anos tive que ir para a pré-primária porque segundo o médico necessitava de estar com outras crianças. Lá aprendi as letras e os números. Quando fui para a Primária já sabia ler, escrever e contar. Aprendi com a D. Mariana e o Sr. David. (já falecidos). O problema veio com a primária. A minha professora chamava-se D. Adelaide. E era má. Muito má. Batia-me tanto. Quando iam lá pessoas importantes, e ela queria mostrar que os alunos já sabiam ler, eu nunca podia. Porque EU já tinha entrado a saber Ler. Dava-me réguadas, puxões de cabelos e de orelhas e estaladas. A ponto de a minha mãe e a minha avó irem lá falar com ela várias vezes. Eu comecei a rejeitar a escola e a dizer que me matava, quando a minha mãe me obrigava a ir. Mas digamos em bom termo, que eu era de facto muito irrqueita. Passava o tempo a falar e a brincar com a minha amiga Luísa (fabixa)... ih ih ih. E ela também apanhava claro. Erámos a dor de cabeça da sala de aulas. Como naquele tempo era permitido aos professores bater nos alunos, era assim que a professora me tentava controlar. Mas eu comecei a insistir que iria deixar de respirar, para morrer e assim deixar de ir às aulas e a minha mãe, resolveu levar-me ao pediatra, que me receitou umas gotas calmantes. Assim aos sete/ oito anos comecei com os benditos calmantes. Contudo as coisas não se resolveram assim. Eu acho que a professora me achou insuportável e resolveu chumbar-me. A minha mãe farta da situação, foi ter com a Directora da escola, a qual observou o meu percurso escolar e ditou que eu transitasse de ano. Quando soube da história toda, mudou-me de professora e eu passei para a 3ª classe com a professora Maria do Céu. E que Céu. Agora que penso nisso, ela era de facto o Céu. Adorei-a. Nunca mais tive problemas deste tipo. Ela deu-me uma fotografia, em que ela estava com um cãozinho castanho. Ainda hoje tenho essa foto. Mas agora que penso nisso tenho que ir procurá-la porque não sei dela.
Bem, mas em relação à Professora Adelaide, eu nunca mais lhe falei. E passava por ela diariamente, mesmo já depois de adulta. Aqui há tempos atrás, a minha mãe disse-me que ela andava à minha procura. E eu disse-lhe logo que não queria conversa com essa Senhora. E por isso nunca a vi. Até hoje...
Hoje foi o funeral da patroa velhinha da minha mãe (A minha mãe começou a trabalhar as manhãs em Janeiro deste ano). E eu fui com a minha mãe, para que ela pudesse ter transporte, pois já se sabe que nestas situações, as pessoas de família não têem muitas condições para pensar em transportes e muito mais. Assim lá fui com a Mel e a avó. Enquanto a minha mãe esteve na missa de corpo presente eu e a Mel fomos ao parque, depois fomos passear e ainda comemos um bolinho as duas. Sim já me aventuro a comer um bolinho. Soube tão bem! Passei de 65 kg para 59 kg - Estou no point!!! E mais importante, sem dores. Bem mas voltando ao assunto, que me trouxe aqui. A Professora Adelaide estava lá no funeral. Eu fiquei à porta do cemitério com a Mel. Quando estavam a sair, a professora olhou para a minha mãe, voltou para trás e perguntou:
- Dona H. ela é que é a Fatinha?
- Sim ela é que é a sua aluna.
- E já tens uma menina?
- Sim e é reguila como eu.
- Tu eras mesmo muito reguila. Não querias aprender a tabuada.
E começamos a falar do meu curso, e do meu percurso. Ela falou dos filhos, da crise económica e disse que estava feliz por me ver assim. Depois acrescentou:
- Sabes, tive que ser assim para ti. Não tinha alternativa. Tu eras rebelde, e tinhas que aprender a matéria. - E ao dizer isto, os olhos ficaram vermelhos, cheios de lágrimas. - Ficaram muito chateadas comigo na altura não foi? (Falamos de há 32 anos atrás!!!!).
- Sim. - Disse a minha mãe. - Ela levou muita tareia.
Eu apenas murmeiro um simples. - Já passou.
Também me comoveu vê-la assim. E toda a raiva ou qualquer outro sentimento que ainda pudesse existir, desapareceu naquele momento. 32 anos depois!!!!!!!!!! E ela andou à minha procura. Tería remorsos? Como é que eu fiquei assim na cabeça dela? Como é que ela ainda se recordava de mim? Porquê? Fui um assunto mal resolvido na sua vida? Bem mais uma ponta do fio que se foi. Pergunto-me porque motivo tenho eu agora estas situações na minha vida. Acho que não tenho mais nenhum assunto mal resolvido neste momento.
Engraçado, porque no caminho a minha mãe disse-me:
- Como estás de exames?
Expliquei-lhe. E ela respondeu:
- Não tens muito tempo, para estudar pois não?
- Não.
- E eu sou uma mãe preguiçosa para ti e para as tuas irmãs. Não as ajudo lá em casa. Nunca as ajudo.
O meu coração deu um baque.
- Ajuda. Ajuda com a Mel. Porque se a mãe não ficasse com ela, como é que eu estudava? Por isso a seu jeito ajuda e muito.
- Sim mas podia ajudar mais. Se não fosse preguiçosa. Ajudaria muito mais.
- Ah esqueça isso. Se estou a conseguir tirar o curso é graças a si e ao pai e ao L. claro. E agradeço por isso.
- Sabes de uma coisa?
- O quê?
- Só peço a Deus que te dê saúde, porque tu tens sido muito sacrificada e espero que a partir de agora consigas fazer tudo o que queres e com muita saúde.
( O meu coração chorou em silêncio. Que lindas palavras. Obrigado mãe. Obrigado vida. Estes momentos de hoje foram de facto interessantes. Não digo que tenha sido coincidência, porque sei que não foi. Por isso... OBRIGADO VIDA.)

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Falando por falar

Lembram-se deste meu post?

http://falandodemimaqui.blogspot.com/2008/11/resgate-de-mim.html

Na altura referia-me à minha família, que acusando-me de me afastar deles, também eles na realidade se afastaram de mim. Por isso me sentia assim. Irritada. Porque nunca ousei em dizer nada. Porque ouvia o que me queriam dizer e eu nada dizia. Até aquele momento, em que fartinha, fartinha os encarei e disse tudo o que tinha que dizer. Depois ficaram eles a pensar no que lhes disse. E voilá. As coisas compuseram-se. O meu relacionamento com a minha mãe, sempre foi complicado. Até aquele momento. Tinha tanto desejado ter uma mãe presente, que mostrasse algum afecto. Que fizesse algo por mim, mas algo assim mesmo, que eu visse que estava a fazer porque gostava de mim. E ela já o fez. Assim como a minha irmã, cunhado e sobrinho. E é bom estarmos todos a bem. Mais uma ponta do fio atada.

Às vezes é bom darmos um murro na mesa.

Acontece que agora tenho ido dormir a casa da minha mãe mais vezes. Sinto-me menos sozinha e a Mel também. Além de que é uma grande ajuda em época de exames.

Estou engripada desde segunda. E que gripe. FONIX. Quero ser saudável (como a Mel diz...).

Um dia destes fomos à praia eu e a Mel. E ela andava a apanhar tesouros (conchas). E acreditava de tal forma naquilo, que os seus olhinhos pareciam duas pequenas estrelinhas. Quão feliz foi aquele momento. Quero viver tantos os que a vida me der, e sentir o que senti naquele momento. O meu maior tesouro era aquele momento único, tão meu.

Estas coisas de relacionamento de mãe e filha tem muito que se lhe diga. Penso também que a morte da minha tia, nos trouxe qualquer coisa ao de cimo, que nos fez pensar e repensar. E depois para ajudar, veio esta minha hospitalização que nos fez pensar ainda mais. Por isso acredito que a conjugação destes factores todos, nos trouxe algo de muito mais forte. Mais intenso. Algo que nem sei explicar. 39 anos depois... oiço isto!!!!!!!!! (shiuuuuuuu, vou contar como tudo se passou...)

A minha mãe adora dizer: "Enerva-te não é? Agora já vês o que eu sofri contigo".
Ok. Ok.... É desgastante sim senhora e depois? É a minha filha.
"Só era diferente numa coisa?"
Qual - pergunto eu.
"Eu não era assim tão carinhosa como tu és para ela."
E foi aqui que o meu coração deu um salto. A minha mãe reconheceu que não era muito carinhosa?? E como isso foi importante para mim. Por dois motivos.
1º Porque sempre senti falta do carinho dela.
2º Porque sei que estou a dar carinho à Mel. (sempre soube né?, mas agora parecia que a minha mãe também tinha sentido a falta desse carinho e que até o queria).
"Sabes, gosto muito quando a Mel me vem dar beijinhos e me diz: avozinha és muito quida. Faz-nos sentir tão bem."
Ai faz faz... E eu sempre tive isso com ela e ela comigo.
Digam lá não é maravilhoso?