domingo, 29 de junho de 2008

Infértil eu??

Quando casei em 1990, no auge dos meus 20 anos estava longe de pensar no que me estava prestes a acontecer.
Sempre fui saudável. Nunca tinha tido graves problemas, portanto além de casar muito nova eu queria ser MÃE muito nova. Tomei 3 meses a pilula, mas o médico desaconselhou-ma. Óptimo. Eu queria ser mãe. Aproveitaria este revés e iniciaria a minha viagem, que me levaria ao paraíso depois de passar por tantas tormentas.
Na lua de mel comecei a sentir, alguns problemas. Fiz exames e mais exames e nada. Durante um ano, os sintomas vinham mensalmente, dolorosos. Intensos. Diagnósticos? Nenhuns.
Vim depois descobrir, que tinha uma infecção, causada por uma bactéria que se alojava no sangue e cujos sintomas eram infecções urinárias mensais. Por isso nada acusava nas análises à urina. Só um ano depois ma descobriram. Dores mais que muitas.
Bem, como na altura era considerada uma doença crónica, fizeram-me um tratamento a mim e ao meu esposo (fora ele que me infectara) e lá começámos a treinar para a gravidez. Mas esta doença causava danos nas trompas e a equipe médica começava a desconfiar que poderia ter sérios problemas nesta área. Para mim não foi um choque, foi antes sim um alívio, porque finalmente fora descoberto o motivo, da minha não gravidez. Contudo após seis meses, nada fora resolvido. Fui ameaçada no trabalho, de que se faltasse mais vezes para este mesmo assunto, iria ser "despedida" - estava ba altura a fazer um estágio profissional numa prestegiada empresa portuguesa. Falei com o maridão. Ele disse que se o meu desejo era ter filhos, então, o estágio não importaria. Apesar de estar na empresa XPTO e que em termos futuros, me daria um bom curriculo.
Bem. Com tanto impasse, fui a um Médico no Montijo - Dr. Tormenta, que me explicou todos os pormenores, inclusive os estragos que provavelmente já teriam ocorrido em mim. Filhos?? Muito complicado, mas possível.
Entretanto outros sintomas aparaceram. Falei deles à minha médica que entretanto me passara para consultas médicas no hospital. Ela não queria acreditar que estava com esses sintomas e eu vim a descobrir, que seria mais uma revés para uma gravidez.
Descobriu-se que eu tinha endometriose ligeira. http://www.gineco.com.br/endometr.htm
Participei num estudo, em que as minhas análises eram enviadas para a Suiça (acho eu) para se ver a evolução do tratemento. Seis meses de menopausa induzida - http://www.lincx.com.br/lincx/saude_a_z/saude_mulher/endometriose.asp
O que é certo é que fiquei sem os sintomas. Fiz histerossalpingografia, http://www.unifesp.br/grupos/rhumana/hsg.htm e foi diagnosticado lesões ao nível das trompas, mas que a médica esperava ter resolvido, de forma a que pudesse engravidar.
Ela dizia-em sempre que iria engravidar até aos 25 anos. Para mim começava a parecer ser um milagre. Bem comecei a tomar Dufine e a fazer os mapas de temperatura.
E aos meus 25 anos engravidei pela primeira vez. A minha irmã estava grávida e com riscos de aborto. Mas esta gravidez iria correr-lhe bem e nasceria o meu menino o Diogo (ela já tinha perdido dois filhos um ao 3 mês de gestação, que só lhe fora tirado uma semana depois de o saber sem vida e uma menina a nossa Joana Sofia, que nascera de 5,5 meses de gestação, com as dimensões da Barbie, que fora dada como morta à nascença, mas que quando a minha mãe se preparava para ir tratar do funeral a descobrira viva -a minha irmã teve a noticia da morte da filha duas vezes!!!! - Assim Joana sobreviveu 3 semanas, nas quais a minha irmã foi para Almada todos os dias, mas acabaria por falecer devido a multi-falhas.). Bem lá estávamos as duas no nosso estado de graça, mas com poucas esperanças. Fui vista pela médica 2 dias depois da noticia, que me informou que provavelmente iria perder o bebé até quinta feira seguinte. O meu mundo desmoronou. Entratanto piorámos as duas e demos entrata no bloco de partos, numa vil coincidência. Ela conseguiu superar o bebé, e eu fui para casa, para deixar que a natureza prosseguisse o seu papel. Ás 17.00 horas de quinta feira, perdi o meu bebé, a mais dura das dores. Fui ao hospital e disseram-me estar tudo bem, afirmaram que eu estava limpinha e que não precisava de raspagem. Tivera um aborto espontâneo - http://boasaude.uol.com.br/lib/ShowDoc.cfm?LibDocID=3353&ReturnCatID=690 . Contudo no domingo o meu marido insistiu que eu fosse com ele sair, porque começava a entrar em depressão. Sai, sem vontade e meia hora depois as dores começaram a repetir-se, por volta do meio dia, perdi um embrião. Revoltada fui ao hospital, queria saber respostas, respostas que não me foram dadas. Voltei vazia de mim mesma. Esperei então os 3 meses e voltei à carga. Novas induções a Dufine, novos mapas e gravidez nada. Aos 27 anos fiz uma laporoscopia desta cirurgica - laporoscopia diagnostica p://www.clinicadrmarcelofaria.com.br/Laparoscopia.htm desta vez, removi um mioma pequeno, e descobriu-se que a trompa direita estava melhor que a esquerda, por isso poderia continuar a tentar. Por volta dos meus 28 anos, e já com mais 2 abortos espontâneos não oficiais, porque embora tenha guardado os embriões a médica disse-me que como passara 48 horas estes já não podiam ser observados - ela não estava no hospital e eu não tinha coragem para ir lá com este assunto, uma vez que na altura reinava o Pacto do Silêncio e não erámos compreendidas, optava por esperar até segunda e mostrar-lhe a ela. Depois de perder os embriões ficava sempre bem, porque a natureza expulsava-os completamente. Completamente descrente optei por não tomar mais nada e tentar esquecer o assunto. No dia do meu 28º aniversário, os familiares perguntaram-me se estava grávida. Impossível disse eu. Não tomei os medicamentos e tive o período. 15 dias depois tive hemorragias. Estava no Alentejo a trabalhar. Fui ao hospital. Resultado: gravidez. Chorei. Chorei com tanta alegria, mas o médico pensava que era de tristeza e que não queria o meu bebé. Foi duro comigo. Só lhe consegui dizer que andava em tratamento de infertilidade mas que tinha parado, e que tudo o que mais queria era aquele bebé e que jamais faria algo contra ele. Más impressões à parte, foi depois o meu melhor amigo no mês seguinte. Perguntei-lhe se esta era uma gravidez psicológica, ao que ele me respondera que não. Que era bem real. Procurou o bebé, mas não o encontrou. Ele estava na trompa direita por bem perto do ovário. Eu estava a ter a minha 1ª gravidez ectópica.http://www.abcdasaude.com.br/artigo.php?220 . Chorei. Agora de dor. Dei a noticia ao meu marido, que aguardava noticias desde as 17.00, eram 21.00. Chorámos os dois a nossa dor, à distância de um telemóvel. Foi duro. Tanta expectativa para nada. Quis ir para casa. Não tinha consciência do perigo, mas permaneci no hospital durante um longo mês. Sai de lá sem o meu bebé (pelo qual eu estava disposta a dar a vida, mas o médico negou logo semelhante pensamento, pois o desenvolvimento do bebé não era viável. Mil vezes tinha preferido morrer, do que ficar sem ele.) e muito abaixo psicologicamente, porque no meu quarto, 4 dias após a operação (de barriga aberta, pois as condições eram fracas) que me tirara a trompa e o bebé, foi para lá um recém nascido, o que abalou o meu auto controlo. O médico chegou no exacto momento em que esse descontrolo aconteceu. Chorei, chorei, chorei e já não conseguia dizer nada. Apenas chorar. Ele deu-me um sedativo e quando se apercebeu do que acontecera, deu-me alta, porque eu já me encontrava bem e chamou desumanas às enfermeiras que tinham criado aquele episódio. Sim temos que nos preparar para encontrar grávidas, mamãs e bebés. Mas ali naquele quarto, onde tudo acontecera? Onde passara por 3 semanas, a desejar que um milagre fizesse sobreviver o bebé e depois foram arrancado de mim? Onde apenas existiam 4 paredes e o mundo lá fora parecia quase irreal? Onde todos os dias, me mandavam ter cuidado porque a situação se podia complicar e eu morrer? Ali eu não consegui superar a minha dor. Precisava do meu mundo real. Contudo sai dali a pensar: e se eu tivesse morrido? O que é que era importante para mim realmente? Aquele mês mudaria para sempre a minha vida. Saí dali com o diagnóstico de que não deveria tentar uma próxima gravidez, porque a trompa esquerda estava em muito mau estado. Nova Histerossalpingografia para avaliar os estragos e fui mandada para o HSM. E lá começou um novo ciclo. Fiz uma Inseminação http://www.aborto.com.br/inseminacao/index.htm, da qual resultou mais uma gravidez. Desta vez não fiquei feliz, não consegui. Comecei a perder sangue e fui ao HSM, onde a médica desvalorizou as percas, mas depois da minha insistência mandou-me fazer uma eco dizendo-me que era muito pouco provavel que uma mulher passasse por duas gravidezes ectópicas. Lá fui fazer a eco, e não foi encontrado o bebé no útero. Pedi à técnica que observa-se a minha trompa esquerda, próximo do ovário. E lá estava o meu bebé. Com o seu coraçãozinho a bater. Chorei. Desta vez sabia o que me esperava. Voltei à médica. Marcou-me a Laporóscopia cirurgica para remoção do embrião, lamentando este acontecimento, e dizendo-me que iriam conseguir salvar a trompa. NÃO!!! Disse eu. A trompa sai. Não podia. O meu marido tinha que assinar dizia-me ela. Ok. Então vou-me embora. Não quero saber mais deste assunto. É perigoso. Não pode. Falámos, mas não me demoveu. No dia seguinte lá estava eu e o meu marido, para mais uma vez nos ser retirado o nosso filho! Tinha eu 31 anos!!
Sai 3 dias depois com 3 buraquinhos a mais na barriga e um embrião e uma trompa a menos. Aliás, sem nenhuma delas. Morri ali naquele momento. E foram precisos 3 longos anos, para voltar à vida. 3 meses depois fiz a minha primeira FIV http://www.invitrofertilizacao.com.br/ e não engravidei. Nem podia. Dentro de mim nada existia.
O tempo passou. O sorriso deixou de existir nos meus lábios.

Em 11 anos tanta coisa mudara na minha vida!
Tinha sido infectada com uma infecção complicada, que felizmente e com a medicina moderna estava curada, tinha tido endometriose e estava curada. Tinha tido 5 gravidezes, 3 abortos espontâneos (num dos quais perdera um embrião numa quinta e outro no domingo) e 2 ectópicas. Não tinha as trompas. Tinha um desejo enorme de ter um filho.
Foi-me diagnosticado tristeza crónica. Comecei a falar em divórcio. Afastei-me de todos os meus familiares. Estava pronta para partir. Nada mais importava na minha vida. Contudo o maridão, começou a tentar trazer-me à vida. Incentivou-me a entrar na Universidade porque era um sonho antigo, afastado apenas pelo desejo de ser mãe.
E eu tentei e entrei de imediato. Tinha 33 anos. Começou depois a falar num novo tratamento. E embora eu negasse inicialmente, disse-lhe que só tentaria após um tratamento psicológico. Ele aceitou e assim depois de um ano, comigo já fortalicida, rumámos ao HSM e iniciámos uma nova FIV - Meu Deus ainda me recordo. Andava tão nervosa que até me enganei na medicação, tinha que levar 30 doses/ dia de determinado medicamento e só dei 3. O médico ficou admirado de apesar do engano, os resultados serem belessimos.
Estavamos a caminho de um milagre. O nosso milagre de vida. A minha razão de viver. O meu motivo de sorriso. A minha alegria na vida.
E fui abençoada. Tanto por ela, como pelo dom com que nasceu.
OBRIGADO VIDA. OBRIGADO UNIVERSO. OBRIGADO MARIDÃO. OBRIGADO FILHA. OBRIGADO MEU DEUS.