quinta-feira, 27 de março de 2008

Desabafo

Enquanto mulher sempre achei que estamos pouco tempo com os nossos filhos. Ironia do destino, passei a ser infértil. Filhos? Via esse desejo muito longe de ser concretizado. Passei e ultrapassei a infertelidade. E de repente ai estava eu a viver a realidade da maternidade. Chorei de alegria quando soube estar grávida e talvez poucas pessoas saibam (as que privam comigo conhecem esta minha realidade) que chorei imenso quando soube que ia ter uma menina. A médica admirou-se com as minhas lágrimas, mas eu soltei-as, porque pesava algo em mim. Algo que vivênciava desde há muito. Por ter sido formadora, conheço bem esta realidade que hoje se vive. Por ser mais que formadora dos meus alunos, conheço realidades que a realidade desconhece. Conheço o outro lado, dos jovens que muitos dos pais não tem acesso. Aquele lado que veio a lume, no dia 21 deste mês. Não critico os meus alunos, com quase todos tive um bom clima, com outros nem por isso. Mas assim é a teia de diferentes personalidades. Recebi muitos elogios, mas aquele que mais guardo até hoje foi de o vários alunos, me dizerem que perdia o meu tempo a dar aulas, porque eu daria uma boa psicóloga. Engano deles. Por dentro eu sofria imenso em silêncio. Apenas lhe dava conselhos, que daria aos meus próprios filhos. Porque eles eram mais do que alunos. Cai no erro de os sentir um pouco meus filhos. E por isso passava para eles, a esperança, o amor o carinho que podia. Ouvia-os horas sem fim. E conversava com eles sempre que necessitavam. Nas minhas sessões de formação, estas conversas não se misturavam. E eles sabiam disso. Contudo também ouvi tremendas criticas. Com elas cresci. Sentia a solidão deles na minha solidão. E perguntava o que faria um dia, quando tivesse um filho. Caso o chegasse a ter. Acho que hoje tenho essa resposta. Seria uma profissional, ou seria Mãe? Optei por ser mãe. E chorei por ter uma menina, no sentido em que hoje é muito mais complicado educar uma menina, do que um menino. Isto claro na minha óptica pessoal e na minha experiência de vida. Convivi durante 14 anos com adolescentes. Aprendi a reconehcer as suas forças e suas fraquezas. Não me desiludo à primeira desavença. Aprendi a esperar que dali pode sair muito melhor. Sou por isso, a favor das segundas oportunidades, nos jovens. Sou contra a primeira opinião. Gosto de ver mais longe que isso. Mas sei também que a situação do nosso país está complicada. Sei que os nossos adolescentes precisam dos pais, mas que os pais precisam do trabalho. Sei também o quanto sofrem as mães trabalhadoras, na nossa sociedade. Sei. Porque também já o fui. Sempre pensei e desejei ficar com a Mel, até ela ter 3 anos. A vida deu-me o que eu queria, mas de uma forma que eu não pedi. Hoje vivo feliz e em pleno esta situação, embora tenha ocasiões em que sinta necessidade de espairecer. Mas no seu todo, sou de facto feliz. Sei também que daqui por um ano ou dois, irei regressar ao trabalho. Por isso decidi mudar completamente o rumo da minha vida. Quero ter tempo para a Mel. Contudo assusta-me um pouco o facto de a educar. É uma grande responsabilidade. Já tenho alguns sinais de alerta, vindos da própria médica dela. A Mel não tem regras. Estou a falhar nisso, embora tenhamos mudado algumas coisas por aqui. Temo, ainda mais porque a Mel foi tão desejada. Desejo do fundo do coração, estar à altura desta função que é dar-lhe e proporcionar-lhe um bom futuro. Quero acima de tudo ser uma mãe presente. Mas será que o poderei ser? Desejo que a vida me conceda mais desejo. Foram muitos anos, onde muito aprendi. Numa realidade que em muito me fez crescer. Foi o lidar com o outro lado dos filhos. O lado que muitos não conhecemos. E nesse lado eu sei que há muita esperança, muito desejo de tudo, basta (assim o desejo) que estejamos atentos a essas necessidades. Contudo agora que estou aqui neste lado, no lado dos pais, sinto que por vezes sou toldada pela mesma realidade dos pais. O nosso amor por eles. O nosso bem querer-lhes. E peço lucidez, para compreender que no outro lado deste haverá uma adolescente, que eu terei que ver, para além deste meu amor.
Adoro-te Mel.
(Como mulher que sou, lógico que quero ser uma boa profissional. E sei que o voltarei a ser. Contudo, na luta que também já foi minha - infertilidade - aprendi a viver um dia de cada vez. Aprendi, que darei um passo a seguir ao outro. Aprendi a controlar a minha ansiedade - que é muita - e aprendi a viver a vida no seu esplendor - que no meu caso é ser mãe. O dia virá em que eu serei a mulher trabalhadora - depois de ter sido D. de casa e Mãe da Mel a temo quase inteiro... LOL)
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